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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Protegê-los de tudo...


A Aurora estava correndo com os bracinhos abertos, os olhinhos fechados, e você sabe o que acontece quando corremos de olhos fechados. A Aurora tropeçou e caiu e ralou os joelhos e as mãos, e foi aquela gritaria, calma calma não foi nada, vem colo, uaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, calma calma, deixa eu passar uma aguinha.
No meio do soluço ela confessou que corria de braços abertos pra tentar voar. "Eu queria voar junto com os passarinhos", disse ela, toda machucada e frustrada. Esses machucados que doem mais na gente do que neles. A ingenuidade das crianças dói na gente.
O filho de um amigo meu descobriu sobre a morte. Com lágrimas nos olhos perguntou: "pai, tudo morre?". Meu amigo respondeu que tudo. "Mas eu não quero morrer, pai". Quem brinca muito não morre, disse meu amigo. O menino abriu um sorriso, ia correndo para o pátio. Parou e disse: "Pai, amanhã você brinca comigo o dia todo?".
Essa pureza dói profundamente. Eles não sabem de nada. Da morte, da perda, da falta de bondade. Não sabem da ganância do homem, da passividade de quem pode e não ajuda os outros. Não sabem do homem que mata, do homem que rouba, do homem que sequestra e machuca. Dói na gente saber que eles não sabem de nada disso. Dói saber que um dia saberão. Dói saber que é impossível protegê-los pra sempre. De tudo.
Quero protegê-los de tudo. 
Da morte. Da maldade. Da gravidade.
Voa entre os passarinhos, Aurora. Enquanto ainda é possível.

Marcos Piangers



2 comentários :

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